No coração de Lisboa, um cálice de Porto

Em pleno coração de Lisboa, entre o supermercado do Sr. Júlio e a padaria da D. Olívia, morava uma senhora, de seu nome Leonilde de Nazaré.

Hoje, muito embora os números das portas continuem a ser os mesmos, nada mais existe. O supermercado fechou. A padaria também. O prédio do meio, bom, o prédio do meio foi deitado abaixo e construído de novo, sem traços das memórias de outros tempos. Poucas são as pessoas que por ali ainda contam histórias da D. Leonilde – mas ainda as há, isso é certo!

Tive o privilégio de privar com esta maravilhosa senhora durante cerca de 20 anos – e sei que não foi suficiente. Tive o privilégio de a chamar pelo nome que melhor lhe assentava: Avó Nini.

A nossa Nini, como carinhosamente a tratávamos, era uma mulher vagarosa no andar, mas ágil em quase tudo o que fazia, especialmente na cozinha. De avental posto e sem recorrer a cábulas, preparava travessas fartas de comida enquanto o diabo esfregava um olho. 

Aprendeu a cozinhar nos livros da sua época, que ensinavam as mulheres a ser boas donas de casa. Não creio, no entanto, que tenha sido essa a sua verdadeira fonte de inspiração.

Dedicada às histórias da sua família e às tradições que fazia questão de manter, não guardava segredos nem ingredientes secretos (excepto, durante anos, o da maravilhosa sopa de feijão encarnado com hortaliça e massa). Não sei qual era a sua comida preferida, mas sei que nunca conseguiu resistir à mousse de limão da Tia Verónica.

Muitas das suas receitas estão no livro da minha mãe – a melhor prova de que o que é bom tem de ser passado de mulher para mulher, de geração em geração. A cozinha é o sítio onde sempre a imagino, de cada vez que penso nela. Sem dar por isso, quando a saudade aperta, quase que nos sinto à conversa, entre tachos e panelas.

Gostava de tudo o que nos cozinhava: dos assados aos guisados, passando pelas sopas e terminando nos doces – em especial, os sonhos do Ano Novo.

Um dia, entre os meus 10-11 anos, pedi-lhe que me ensinasse a fazer croquetes de carne, uma das coisas que todos os netos gostavam de comer em casa dela. A receita que ela fazia era igual a muitas outras, embora dissesse que fazia os croquetes da Aurorinha, uma antiga empregada lá de casa.

Nas memórias daquela cozinha, amarelada pelo tempo, contava-se que a Aurorinha tinha uma predilecção por vinho do Porto, adicionando-o, como desculpa, aos seus cozinhados, sempre que achava oportuno. Exemplo disso eram os seus croquetes.

Se era desculpa ou não, a verdade é que nunca me esqueci desta história. Hoje em dia, sempre que faço croquetes, coloco um cálice de vinho do Porto, sem qualquer desculpa ou interesse, a não ser o de lhe dar um toque especial. Sei que sou a única fazedora de croquetes na família, uma das melhores heranças que a minha avó me podia ter deixado – a de poder voltar a sentir o seu abraço, num pequeno prato de croquetes de carne.

Croquetes de Carne

da Aurorinha

Ingredientes:
120 g de margarina
140 g de farinha
2 cebolas pequenas
2 dentes de alho
1 folha de louro
300ml de leite
800g de carne picada – assada ou estufada
1 ovos batido (+ 2 para panar)
1 cálice pequeno de Vinho do Porto
farinha q.b.
pão ralado q.b.
sal q.b.
pimenta preta q.b.
noz moscada q.b.
piripiri (opcional)
salsa q.b.
2 c. de sopa de sumo de limão

Modo de Preparação:

Quando faço croquetes, nunca uso sobras, embora saiba que é uma forma prática de as usar.

No próprio dia, ou na véspera, este é o tipo de estufado que faço, para poder intensificar um pouco mais o sabor da carne nos croquetes.

Comece a preparar os croquetes:

Num tacho, derreta a margarina. Junte depois a cebola, que deve ser picada finamente (ou triturada), os dentes de alho (ralado ou esmagado) e a folha de louro. Deixe refogar durante alguns minutos, enquanto prepara a carne.

A carne deve ser assada ou estufada, como já referi. Pode, inclusive, usar um pouco de molho para intensificar o sabor.

Pique a carne numa trituradora, para que tudo fique uniforme. Reserve.

No tacho onde está a refogar a cebola, acrescente agora a farinha e mexa muito bem.

Assim que a farinha fique bem envolvida com os restantes ingredientes, comece a adicionar o leite quente, pouco a pouco, até a mistura se começar a descolar do tacho.

Seguidamente, junte a carne picada e envolva muito bem – vai precisar de alguma força.

Junte um cálice de vinho do Porto e um bom ramo de salsa picada. Prove e retifique o sal e a pimenta.

Adicione um pouco de noz moscada e paprica e envolva bem. Um pouco de piripiri é opcional, mas intensifica ainda mais o sabor da carne, sem a deixar picante.

Acrescente 1 ovo batido e o sumo de limão. Envolva bem e leve de novo ao lume, que deve estar baixo, para cozinhar o ovo, sem secar demasiado a carne.

Ao fim de 4 ou 5 minutos estará pronto. Espalhe a carne numa travessa, para que arrefeça mais depressa. Cubra depois a carne com um pouco de papel vegetal, para que não seque ou escureça.

Assim que arrefeça, leve o tabuleiro ao congelador por cerca de 30 minutos.

Retire a carne do congelador e molde croquetes do tamanho desejado, passando-os depois por farinha, ovo e pão ralado.

Assim que panados, congele por mais alguns minutos antes de os fritar. Quando o fizer, certifique-se que o óleo esteja bem quente.

Esta é a simples sugestão que vos trago hoje. Carregada de memórias e calor no coração, desejo-vos um bom final de semana e agradeço-vos por continuarem por aqui comigo.

Até breve!

 

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