Os anos passam e algumas tradições ficam. Ainda bem que assim é, especialmente quando se trata de tradições que mantêm uma família junta, à mesa. Conversas que não têm fim, vozes que se atropelam, relógios que não vêem as horas que passam e saudades que se matam, mas nunca o suficiente para que fiquem mortas.
Quantas vezes, em conversa com familiares, amigos e conhecidos, damos por nós a falar daquela travessa, marco das férias com os primos, dos almoços nos dias festivos, dos dias em que o Herman ainda tinha piada e daquela comidinha especial que só as avós sabiam preparar?
Os pratos que reproduzimos, sejam das nossas avós, sejam das nossas mães, podem nunca mais ter o mesmo sabor. É certo e sabido que os tempos mudam, os ingredientes transformam-se, até os utensílios perdem o seu valor, quando feitos com materiais diferentes. Para além disso, a memória que temos de determinado paladar, acaba por se ir deteriorando – há uma série de factores que interferem nos sabores das receitas que passamos de geração em geração.
No entanto, a meu ver, o verdadeiro valor daquilo que fazemos está no cumprir (e manter) a tradição, na lembrança dos pequenos detalhes, das pequenas conversas, sons, cheiros e sabores, mesmo que já meio deturpados.
Domingo é, para mim, o melhor dia para vestir o avental, para o encher de farinha e tingir as mãos com os mais variados cheiros. Domingo é dia de cozinhar receitas de família, dia de ter o forno ligado por tempo indeterminado, até que tudo se acabe, excepto a loiça dentro da pia.
Ontem não foi excepção e, para além do frango assado com legumes, que terá destaque numa das minhas próximas receitas, foi ainda dia de encher a casa de aromas doces, de massa amanteigada a formar crosta e de fruta a caramelizar.
A ideia inicial era fazer uma tarte pomposa, reflectindo eventualmente o meu mau jeito para simetrias. No entanto, na sexta-feira, enquanto andava a comprar o resto das coisas para o fim de semana, dei por mim a entrar na leitaria/queijaria da vila, para comprar manteiga avulso, produto local.
Estou cada vez mais rendida aos produtos da região, isso é certo, mas nunca pensei que aquela simples manteiga fosse mudar radicalmente o sabor da massa da tarte, tornando-a em algo único que, em vez de pedir para ser elegante, pediu para ser rústica e tosca, em homenagem à simplicidade da vida no campo e às vaquinhas que muito bem se tratam para nos poderem dar aquele leite maravilhoso.
O resultado final foi uma surpresa maravilhosa, de muita massa comida crua e de um topo de um intenso crocante. Já as maçãs, que se mantiveram firmes e fiéis aos seus sabores, uniram-se em perfeita sintonia com a compota criada pelos mirtilos.
Não sou fã de acompanhar quentes com gelados, excepto talvez nos brownies. Por esta razão, dei por mim, à última da hora, a fazer um creme inglês apressado, com travo a limão e baunilha, que deixou a tarte ainda mais reconfortante.
Que belo domingo que nós tivemos ontem!
Tarte crocante de
Maçãs & Mirtilos
Ingredientes para 6-8 pessoas:
Para a massa:
325g de farinha
75g de açúcar amarelo
180g de manteiga fria, aos cubos
2 gemas de ovo
2 c. de sopa de água gelada
1 pitada de sal
Para o recheio:
8 maçãs boas para assar
80g de açúcar amarelo
1 limão
1 pitada de sal
1 c. de café de baunilha
1 c. de café de canela
300g de mirtilos
3 c. de sopa rasas de amido de milho
Para finalizar:
1 ovo para pincelar + açúcar para polvilhar
Modo de preparação:
Use um processador para fazer a massa, pois vai ser mais rápido e prático.
Coloque a farinha, a pitada de sal, o açúcar e a manteiga aos cubos no processador. Pulse várias vezes, até criar uma espécie de areia.
De seguida, junte 2 gemas de ovo e 2 colheres de água bem gelada. Misture constantemente, até que a massa ganhe corpo e forme uma espécie de bola.
Retire tudo do triturador e pressione com as mãos até formar 1 disco grande. Corte 1/3 da massa e forme 1 disco mais pequeno e um maior.
Embrulhe ambos os discos em película aderente e leve ao frigorífico, enquanto prepara o recheio.
A massa deverá descansar pelo menos 30 minutos no frio.
Descasque as maçãs e corte-as da forma que achar mais conveniente. Deite sobre elas um pouco de sumo de limão, para que não oxidem tão depressa.
Assim que terminar, deite o açúcar, a canela, a baunilha e a pitada de sal e envolva bem.
Deixe repousar por 15 minutos.
Pré-aqueça o forno nos 180°.
Unte uma tarteira com um pouco de manteiga. Utilizando o disco maior, estique a massa e cubra a base e as laterais da tarteira. Note que a massa pode partir um pouco. Se partir, espalhe com os dedos para corrigir as falhas.
O importante é que toda a tarteira fique bem coberta de massa.
Coloque uma folha de papel vegetal sobre a massa e, por cima, algo que faça peso. Eu tenho, como habitual, um frasco com feijões secos – que reutilizo.
Leve ao forno durante 12 minutos, para que a base da massa cozinhe um pouco.
Enquanto espera, junte, na taça das maçãs, os mirtilos e o amido de milho. Envolva bem para que fique sem grumos.
Aproveite ainda para esticar o disco de massa mais pequeno, cortando depois a massa às tiras finas. Pense na decoração que vai fazer, com a massa que tem.
A massa irá ficar bastante crocante, isso é certo.
Assim que os 12 minutos passarem, tire a tarteira do forno e retire delicadamente o papel vegetal.
Deite sobre a tarteira o recheio das maçãs e dos mirtilos e decore, de imediato, com a massa que sobrou.
Pincele apenas a massa (tiras e extremidades) com 1 ovo batido e polvilhe com açúcar.
Leve ao forno durante cerca de 25 minutos, altura em que o topo da tarte terá uma cor dourada e os mirtilos tenham libertado os seus sucos.
Deixe arrefecer um pouco antes de servir. Delicie-se com esta tarte ao natural, acompanhada de um creme inglês quente ou, se preferir, a tal bola de gelado.
Espero que tenham gostado da minha sugestão e que, caso queiram fazer esta ou outra tarte, escolham sempre uma boa manteiga – pois fará toda a diferença na massa.
Aproveito para desejar a todos uma excelente semana e agradecer por continuarem por aqui comigo.
Até breve!
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